A linha do tempo de tragédias regionais varridas para debaixo do tapete




Naiara Karine; Moisés Rodrigues e a mãe de Nicolas, Marcieli Naitz 

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Porto Velho, RO – O Brasil, este pedaço enorme de terra em dimensões continentais, cheio de qualidades, hoje respira o lado obscuro da lua. A pátria amada e seus filhos gozam de credenciais que envergonham exageradamente interna e externamente. Comprou e encalacrou em si a pecha de plaga da corrupção, do esquema, do jeitinho, do agrado, do engodo, da discrepância social, da hipocrisia, dos desmandos, dos larápios e dos surrupiados. 

O brasileiro está, para todos os efeitos, cercado por linhas limítrofes invisíveis e intransponíveis de injustiça para tudo quanto é canto. Por ora, percebe-se, não há escapatória. 

A coletividade parece ter perdido a fé em relação a quaisquer possibilidades de promoção real de justiça. Os simplistas que confundem insatisfação com ingratidão costumam bradar:

– Se não está contente, caia fora daqui!

Infelizmente, a descrença não pode ser curada com saídas estratégicas de uma nação à outra sem olhar para trás. Existem raízes pelas quais lutar e laços consanguíneos e de afinidade a proteger.

As moléstias devem emergir sempre. Não deveria ser permitido cair na esparrela do lapso memorial que escancara a porta da impunidade a inúmeros malfeitores sorridentes e vitoriosos.

Em Rondônia, existem três casos funestos e irresolutos que arrebataram vidas e esfacelaram o âmago de pelo menos três famílias e seus sobreviventes. 

E sim, este é o termo correto porque, ainda que os familiares não tenham sido o alvo físico do tormento impetrado por facínoras inescrupulosos, as consequências desses fatos lhes tiraram o direito de viver para passar à condição de sobrevida. 

Os clãs de Nicolas Naitz, o bebê desaparecido; Naiara Karine, a estudante brutalmente estuprada e assassinada a sangue frio e Moisés Rodrigues, o servidor que ‘sumiu’ no Rio Madeira sofreram – e ainda sofrem – o amargor da perda e passaram a enveredar seus esforços numa campanha por respostas. Respostas estas que, até agora, não vieram. 



A mãe de Naitz, por exemplo, jamais desistiu. Vai e volta enfrentando toda ordem de burocracia, buscando migalhas de indícios, pesquisando, investigando por si e contando com o auxílio de gente de boa-fé dentro e fora do serviço público. Para ela é questão de honra encontrar um desfecho objetivo, palpável.

Já a família de Naiara teve de ir embora. Pegou as malas e se mandou daqui. O estuprador confesso, que mais parecia um ‘boi de piranha’, não convenceu os pais da moça de que toda aquela história não teria ligação com gente graúda, cujos poderes e influências poderiam mesmo ‘abafar’ um caso tão escandaloso e aterrador quanto o da morte de sua filha. A despeito de ter havido condenações o suposto mandante que seria o ‘peixe maiúsculo’ da narrativa jamais fora encontrado pela autoridade policial responsável pela ocorrência.

Por fim, está Moisés Rodrigues, que teve a honra abalroada depois de morto. Foi tachado de bêbado e descrito como sujeito psicologicamente instável – pelos seus colegas de trabalho. Na ocasião, não estava mais aqui para se defender. 

A exemplo dos outros casos, os familiares bateram o pé e nunca largaram de mão a oportunidade de conceder a Moisés um final digno, contrariando os pormenores apontados contra ele sem possibilidade de expor contraditório. 

Sobre esta última situação, Rondônia Dinâmica publicou com exclusividade vídeo em que uma ribeirinha diz ter testemunhado a execução de um homem no barco em que Rodrigues viajou e não retornou. Ela teria presenciado a cena justamente no mesmo dia em que servidor do Executivo desapareceu. As imagens já foram encaminhadas às mãos das autoridades competentes e o caso pode ter uma reviravolta, segundo fontes do jornal. 

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O que Nicolas, Naiara e Moisés têm em comum?

Não são filhos ou parentes de políticos ou quaisquer autoridades representantes dos Três Poderes. Não tem voz e nem vez. São herdeiros de cidadãos comuns que, por sua vez, herdam do poder público o papelório, a ineficiência, o desinteresse e a inoperância. 

Que os tapetes do esquecimento que encobrem esses rastros animalescos da perversidade humana e da negligência de alguns burocratas inanimados sejam retirados o quanto antes. 

Em memória às vítimas  

A coluna Visão Periférica é publicada às sextas

 

Autor / Fonte: Vinicius Canova

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